segunda-feira, 19 de março de 2012

AS PROVAS E A MORTE

Estabelecido o alvo da existência, mais alto que a fortuna, mais elevado que a felicidade, uma Inteira revolução produz-se em nossos intuitos.

O Universo é uma arena em que a alma luta pelo seu engrandecimento, e este só é obtido por seus trabalhos, sacrifícios e sofrimentos. A dor, física ou moral, é um meio poderoso de desenvolvimento e de progresso. As provas auxiliam-nos a conhecer, a dominar as nossas paixões e a amarmos realmente os outros. No curso que fazemos, o que devemos procurar adquirir é a ciência e o amor alternadamente. Quanto mais soubermos, mais amaremos e mais nos elevaremos. A fim de podermos combater e vencer o sofrimento cumpre estudarmos as causas que o produzem, e, com o conhecimento dos seus efeitos e a submissão às suas leis, despertar em nós uma simpatia profunda para com aqueles que o suportam. A dor é a purificação suprema, é a escola em que se aprendem a paciência, a resignação e todos os deveres austeros. É a fornalha onde se funde o egoísmo, em que se dissolve o orgulho. Algumas vezes, nas horas sombrias, a alma submetida à prova revolta-se, renega a Deus e sua justiça; depois, passada a tormenta, quando se examina a si mesma, vê que esse mal aparente era um bem; reconhece que a dor tornou-a melhor, mais acessível à piedade, mais caritativa para com os desgraçados.

Todos os males da vida concorrem para o nosso aperfeiçoamento. Pela dor, pela prova, pela humilhação, pelas enfermidades, pelos reveses o melhor desprende-se lentamente do pior. Eis por que neste mundo há mais sofrimento que alegria. A prova retempera os caracteres, apura os sentimentos, doma as almas fogosas ou altivas.

A dor física também tem sua utilidade; desata quimicamente os laços que prendem o Espírito à carne; liberta-o dos fluídos grosseiros que o retêm nas regiões inferiores e que o envolvem, mesmo depois da morte. Essa ação explica, em certos casos, as curtas existências das crianças mortas com pouca idade. Essas almas puderam adquirir na Terra o saber e a virtude necessários para subirem mais alto; como um resto de materialidade Impedisse ainda o seu vôo, elas vieram terminar, pelo sofrimento, a sua completa depuração.

Não imitemos esses que maldizem a dor e que, nas suas imprecações contra a vida, recusam admitir que o sofrimento seja um bem. Desejariam levar uma existência a gosto, toda de bem-estar e de repouso, sem compreenderem que o bem adquirido sem esforço não tem nenhum valor e que, para apreciar a felicidade, é necessário saber-se quanto ela custa. O sofrimento é o instrumento de toda elevação, é o único meio de nos arrancarmos à indiferença, à volúpia. É quem esculpe nossa alma, quem lhe dá mais pura forma, beleza mais perfeita.

A prova é um remédio infalível para a nossa inexperiência. A Providência procede para conosco como mãe precavida para com seu filho. Quando resistimos aos seus apelos, quando recusamos seguir-lhe os conselhos, ela deixa-nos sofrer decepções e reveses, sabendo que a adversidade é a melhor escola da prudência.

Tal o destino do maior número neste mundo. Debaixo de um céu algumas vezes sulcado de raios, é preciso seguir o caminho árduo, com os pés dilacerados pelas pedras e pelos espinhos. Um Espírito de vestes lutuosas guia os nossos passos; é a dor santa que devemos abençoar, porque só ela sacode e desprende-nos o ser das futilidades com que este gosta de paramentar-se, torna-o apto a sentir o que é verdadeiramente nobre e belo.

Sob o efeito desses ensinos, a que se reduz a idéia da morte? Perde todo o caráter assustador. A morte mais não é que uma transformação necessária e uma renovação, pois nada perece realmente. A morte é só aparente; somente muda a forma exterior; o princípio da vida, a alma, fica em sua unidade permanente, indestrutível. Esta se acha, além do túmulo, na plenitude de suas faculdades, com todas as aquisições com que se enriqueceu durante as suas existências terrestres: luzes, aspirações, virtudes e potências. Eis ai os bens imperecíveis a que se refere o Evangelho, quando diz: “Os vermes e a ferrugem não os consumirão nem os ladrões os furtarão.” São as únicas riquezas que poderemos levar conosco e utilizar na vida futura.

A morte e a reencarnação que se lhe segue, em um tempo dado, são duas condições essenciais do progresso. Rompendo os hábitos acanhados que havíamos contraído, elas colocam-nos em meios diferentes; obrigam a adaptarmo-nos às mil faces da ordem social, e universal.

Quando chega o declínio da vida, quando nossa existência, semelhante à página de um livro, vai voltar-se para dar lugar a uma página branca e nova, aquele que for sensato consulta o seu passado e revê os seus atos. Feliz quem nessa hora puder dizer: meus dias foram bem preenchidos! Feliz aquele que aceitou as suas provas com resignação e suportou-as com coragem! Esses, macerando a alma, deixaram expelir tudo o que nela havia de amargor e fel.

Rememorando na consciência as suas tribulações, bendirão os sofrimentos que suportaram, e, com a paz íntima, verão sem receio aproximar-se o momento da morte.

Digamos adeus às teorias que fazem da morte a porta do nada, ou o prelúdio de castigos Intermináveis. Adeus sombrios fantasmas da Teologia, dogmas medonhos, sentenças inexoráveis, suplícios infernais! Chegou a vez da esperança e da vida eterna! Não mais há negrejantes trevas, porém, sim, luz deslumbrante que surge dos túmulos.

Já vistes a borboleta de asas multicores despirem a informe crisálida, esse invólucro repugnante, no qual, como lagarta, se arrastava pelo solo? Já a vistes solta, livre, voejar ao calor do Sol, no meio do perfume das flores? Não há imagem mais fiel para o fenômeno da morte. O homem também está numa crisálida que a morte decompõe. O corpo humano, vestimenta de carne, volta ao grande monturo; o nosso despojo miserável entra no laboratório da Natureza; mas, o Espírito, depois de completar a sua obra, lança-se a uma vida mais elevada, para essa vida espiritual que sucede à vida corpórea, como o dia sucede à noite. Assim se distingue cada uma das nossas encarnações.

Firmes nestes princípios, não mais temeremos a morte. Como os gauleses, ousaremos encará-la sem terror. Não mais haverá motivo para receio, para lágrimas, cerimônias sinistras e cantos lúgubres. Os nossos funerais tornar-se-ão uma festa pela qual celebraremos a libertação da alma, sua volta à verdadeira pátria.

A morte é uma grande reveladora. Nas horas de provação, quando as sombras nos rodeiam, perguntamos algumas vezes: Por que nasci eu? Por que não fiquei mergulhado lá na profunda noite, onde não se sente, onde não se sofre, onde só se dorme o eterno sono? E, nessas horas de dúvida e de angústia, uma voz vem até nós e diz-nos: Sofre para te engrandeceres, para te depurares! Fica sabendo que teu destino é grande. Esta terra fria não é teu sepulcro. Os mundos que brilham no âmbito dos céus são tuas moradas futuras, a herança que Deus te reserva. Tu és para sempre cidadão do Universo; pertences aos séculos passados como aos futuros, e, na hora atual, preparas a tua elevação. Suporta, pois, com calma, os males por ti mesmo escolhidos. Semeia na dor e nas lágrimas o grão que reverdecerá em tuas próximas vidas. Semeia também para os outros assim como semearam para ti!

Ser imortal, caminha com passo firme sobre a vereda escarpada até às alturas de onde o futuro te aparecerá sem véu! A ascensão é rude, e o suor inundará muitas vezes o teu rosto, mas, no cimo, verás brilhar a grande luz, verás despontar no horizonte o Sol da Verdade e da Justiça!

A voz que assim nos fala é a voz dos mortos, é a voz das almas queridas que nos precederam no país da verdadeira vida. Bem longe de dormirem nos túmulos, elas velam por nós. Do pórtico do invisível vêem-nos e sorriem para nós. Adorável e divino mistério! Comunicam-se conosco e dizem: Basta de dúvidas estéreis; trabalhai e amai. Um dia, preenchida a vossa tarefa, a morte reunir-nos-á.

Léon Denis

Depois da Morte

sexta-feira, 16 de março de 2012

A DIFUSÃO DO LIVRO ESPÍRITA

“Aconselho que não percas tempo; é preferível que os volumes esperem peio público, do que este por eles. Nada deprecia mais uma obra do que a interrupção da sua venda, impacientado por não poder satisfazer aos pedi­dos que recebe o editor, a quem assim escapam ocasiões de vender o livro, se desinteressa das obras do autor imprevidente”.

(Allan Kardec, OBRAS PÓSTUMAS, 12ª edição da FEB.)



QUANDO O PROGRAMA DO LIVRO ESPIRITA, numa conjugação de esforços do Mundo Invisível com o Plano Terreno, através da Casa de Ismael, se delineia em nova fase editorial, em via de conclusão quanto ao seu avançado parque gráfico, preparando-se para vasto esquema de penetração do livro espírita em todos os pontos geográficos do Brasil, é justo que nos lembremos de Allan Kardec, “o pontífice da luz” (Irmão X), de suas lutas, dedicações e renúncias, graças às quais o Espírito da Verdade transmitiu ao mundo a Doutrina Espírita, restaurando o Cristianismo do Cristo.

Efetivamente, ao rememorarmos o 18 de abril de 1857, data em que “O Livro dos Espíritos” foi lançado à venda, em Paris, iniciando a Codificação Kardequiana, complementada ao longo de onze decênios, mas jamais completável, queremos salientar as dificuldades vividas pelo Missionário de Lyon, para a preparação e lançamento das obras básicas do Espiritismo, a fim de melhor valorizarmos o instrumental de trabalho que possuímos hoje no Brasil.

Pela simples transcrição que encima este artigo, observamos o cuidado dos Espíritos em orientar o Codificador no pertinente às limitações a que ele estava jungido, dependendo de editores e livreiros estranhos às questões doutrinárias, pois aquele não era ainda o momento para que o Espiritismo dispusesse de editora e gráfica próprias, totalmente independentes de quaisquer interesses alheios ao ideal do Evangelho.

Allan Kardec, “o bom senso encarnado”, humilde como verdadeiro apóstolo, jamais abdicando do seu livre arbítrio e da sua independência de raciocínio, que é “o prumo da cons­ciência” (Kelvin van Dine), seguia fielmente a orientação de seus guias. Em “Obras Póstumas”, podemos ler peças notáveis quanto a problemas de revisão, venda, reedição de livros e, até mesmo, sobre fantasias de ofertas de obras espíritas “a preços fabulosamente reduzidos” (pág. 288). Já naquela época os Espíritos advertiam o Codificador quanto aos perigos de idéias divorciadas das realidades econômicas, pois o livro e a imprensa, no Espiritismo, serão auto-sustentáveis ou não subsistirão (ver “Reforma­dor”, nov.-1971, “A “Cidade do Livro” em expansão”, págs. 252/3).

Mas Allan Kardec estava atento, por isso colhia também grandes alegrias: “Deves contar com um esgotamento rápido dos volumes. Quando nós te dizíamos que esse livro seria um grande êxito entre os que tens tido (“ A Gênese “), referíamo-nos simultaneamente a êxito filosófico e material. Como vês, eram justas as nossas previsões. Importa estejas pronto para qualquer momento; as coisas se passarão com maior rapidez do que supões”.Noutras oportunidades, vinham consolações e avisos de prudência: “Ride das declamações vãs; deixai que falem os dissidentes, que berrem os que não podem consolar-se de não serem os primeiros; todo esse arruído não impedirá que o Espiritismo prossiga imperturbavelmente o seu caminho. Ele é uma, verdade e, qual rio, toda verdade tem que seguir seu curso”.“Ai dos que não hajam preparado para si um abrigo! Ai dos fanfarrões que forem ao encontro do perigo com o braço desarmado e o peito descoberto! Ai dos que afrontarem o perigo empunhando a taça! Que terrível decepção os espera! A taça que empunham não lhes chegará aos lábios, antes que eles sejam atingidos!“ (págs. 301, 297 e 299, respectivamente, de “Obras Póstumas”).

O trabalho do livro espírita, quando já penetramos os pórticos da Nova Era, revela-se Fundamental à destinação dos Espíritos, pois está reservada a ele a tarefa gigantesca de levar a cada lar, a cada homem, a substância do conhecimento espiritual capaz de iluminar as cons­ciências. Todo Espírito disporá, num futuro que esperamos não esteja distante, dos elementos essenciais para o auto-conhecimento libertador: “A Terra de todos os séculos sofre a flagelação de dois grandes males. Um deles é a miséria. O outro, e o maior, é a ignorância. É a ignorância a magia negra de todos os infortúnios”.“É preciso ler para saber pensar e compreender. Por esta razão expressiva, o Cristo, que consolou almas aflitas e curou corpos doentes, que patrocinou a causa dos sofredores e construiu caminhos para a salvação das almas nos continentes infinitos da vida, não se afirmou como sendo restaurador ou médico, advogado ou engenheiro, mas aceitou o título de Mestre e nele se firmou, por universal consagração “. (“Falando a Terra”, Demétrio N. Ribeiro, psicografia de Francisco Cândido Xavier, 2ª edição. FEB) “Os elevados colaboradores do Embaixador Sublime examinaram o assunto, por muitos e muitos anos, e, depois de longas marchas e contramarchas, assentaram entre si que o monumento capaz de conservar as lições do Divino Mestre, ao dispor de todas as criaturas e ao alcance de todas as inteligências, era precisamente o LIVRO, o único instrumento apto a preservar os tesouros do espírito, acima dos séculos, na moradia dos homens!...” (“Reformador”. Abr. -1969, Ir­mão X, médium Francisco Cândido Xavier).

Como não podia deixar de ser, o Comando Supremo do programa do livro espírita continua com seus Excelsos Autores nas Esferas Invisíveis. Allan Kardec teve êxito porque não duvidou da “administração do céu” e com ela manteve ininterrupta sintonia e obediência. A Casa de Ismael também nunca duvidou: continua sintonizada e obediente.

* * *

“Em todos os lugares, vemos o faminto e o ignorante em atitudes diversas. O faminto trabalha afanosamente na conquista do pão. O ignorante é indiferente à posse da luz. O faminto reconhece a própria carência. O ignorante não se define. O faminto aparece. O ignorante oculta-se. O faminto anuncia a própria necessidade. O ignorante engana a si mesmo”.“Seara dos Médiuns”, de Emmanuel, por Francisco Cândido Xavier, edição FEB.)

Precisamos, “com urgência, sem pressa” (Bezerra de Menezes). Ou seja: com firme programação e sem protelações, fomentar a difusão ampla, profunda, do livro espírita. E é esta uma tarefa em que virtualmente se devem considerar vinculados compulsoriamente todos os adeptos conscientes da Doutrina Consoladora. Os escritores, desencarnados ou reencarnados, elaboram as obras convenientes, a FEB as edita e distribui pelas livrarias e casas espíritas, grandes e pequenas. Se estas não dispõem das obras procuradas pelos interessados, há o serviço de reembolso que, através da EBCT (antigo Cor­reios), as remete para toda e qualquer localidade do Brasil, por menor que seja.

Mas, o trabalho do espírita, para integrar a equipe de voluntários na difusão do livro espírita, direito do qual ele não deve abrir mão, é mais amplo ainda. Tenha ou não encargos de direção em Centros ou Grupos. Para que os objetivos colimados sejam alcançados em profundidade, importa que cada um tenha sua coleção de obras selecionadas, coleção que será menos ou mais rica em número de volumes, segundo as necessidades ou possibilidades próprias. A seguir, observará se o seu Centro ou Grupo dispõe de biblioteca de obras para consulta e empréstimo; se nele existe, periodicamente suprida, pelo menos uma estante de livros para venda aos seus freqüentadores; se em sua cidade já funciona uma barraca de livros (Feira); e, finalmente, se as livrarias comerciais de seu bairro ou cidade vendem livros espíritas. Ê trabalho inegavelmente seu, intransferível, diligenciar no sentido de que, mediante contatos com os responsáveis, tais organizações venham a expor os livros espíritas ao público.

Realizar palestras nas sociedades sobre certos temas contidos nos livros espíritas, recomendando-os ao público, é de grande valia, pois inúmeros companheiros desconhecem que deter­minadas questões foram tratadas numa ou noutra obra de há muito existente. Além disso, todos podemos presentear livros espíritas. in­distintamente. a confrades nossos ou não. Final­mente, providenciar para que as bibliotecas públicas, as das agremiações que integramos — sejam sindicais, desportivas, recreativas ou outras — adquiram ou recebam de espíritas todos os livros doutrinários.

Em suma, o espírita vigilante, atento, agirá para que o livro espírita esteja sempre em toda parte.

Interrompamos, por instantes, a leitura deste artigo. Meditemos. O que acontecerá se os que lêem, e concordam conosco, ao invés de esperarem que a tarefa seja realizada por outros, como muita vez ocorre, arregaçarem as mangas e partirem para o trabalho sugerido? Duas coisas certamente ocorrerão. A primeira, a mais importante, é que teremos começado em todas as frentes, e a um só tempo, a espancar as trevas da ignorância, que ainda infelicitam o cons­ciências; a suprimir os males da superstição e da simonia: a consolar e esclarecer “os filhos do Calvário” e a acelerar o estabelecimento do Reino de Deus no coração dos homens —, tudo em termos evangélicos e populares, porque Jesus pregava a Boa Nova ao indivíduo, falando à multidão. A segunda, por via de conseqüência, é que a FEB terá de produzir mais livros, mas ela para isso já está se preparando há muito tempo.

O Departamento Editorial e o “Reformador” prosseguem no escopo de aprimoramento de suas edições. Proximamente, teremos notícias que alegrarão muito os companheiros do Espiritismo em todo o país. Importante infra-estrutura editorial e gráfica, garantidora de alta produção, está em montagem. Livros e revistas suficientes para todos, talvez ainda neste exercício. Com excelente apresentação, esmero e acabamento. E a integridade dos textos e a pureza doutrinária de sempre.

“Auto-educação — tema constantemente discutido, realização raramente buscada. Ninguém lhe escapa ao imperativo, e podemos afirmar que fora da auto-educação não há evolução”.“Indispensável o estudo em toda iniciativa de auto-aperfeiçoamento. O livro é a chave de luz da porta estreita de acesso aos Planos Superiores”.(“Reformador”, out. -1964, Kelvin van Dine, psicografia de Waldo Vieira.).

Fonte: Reformador nº 4 – abril, 1972.

segunda-feira, 12 de março de 2012

PARA AFASTAR OS MAUS ESPÍRITOS


A intromissão dos Espíritos enganadores nas comunicações escritas é uma das maiores dificuldades do Espiritismo. Sabe-se, por experiência, que eles não têm nenhum escrúpulo em tomar nomes supostos e até mesmo nomes respeitáveis. Há meios de os afastar? Eis a questão. Para isto, certas pessoas empregam aquilo que poderíamos chamar processos, isto é, fórmulas particulares de evocação, ou espécies de exorcismo, como por exemplo, faze-los jurar em nome de Deus que dizem a verdade, fazê-los escrever alguma coisa, etc. Conhecemos alguém que, a cada frase, obriga um Espírito a assinar o nome. Se este é o verdadeiro, escreve-o sem dificuldade, se não o é, pára ao meio, sem poder concluí-lo. Vimos essa pessoa receber comunicações as mais ridículas, de Espíritos que assinavam um nome falso com grande aprumo. Outras pessoas pensam que um meio eficaz é fazer confessar Jesus encarnado ou outros princípios da religião.

Pois bem, declaramos que se alguns Espíritos um pouco mais escrupulosos se detêm ante a idéia de um perjúrio ou de uma profanação, outros juram tudo o que quisermos, assinam todos os nomes, riem-se de tudo e afrontam a presença dos mais venerados signos, de onde se conclui que entre as coisas que podem ser chamadas processos não há nenhuma fórmula e nenhum expediente material que possa servir de preservativo eficaz.

Neste caso dir-se-á que nada há a fazer, senão deixar de escrever.  Este meio não seria melhor.  Longe disto, em muitos casos seria pior. Dissemos, e nunca seria demais repeti-lo, que a ação dos Espíritos sobre nós é incessante e não é menos real pelo fato de ser oculta. Se ela deve ser má, será ainda mais perniciosa, por isso que o inimigo estará escondido. Pelas comunicações escritas este se revela, se desmascara, ficamos sabendo com quem tratamos e podemos combate-lo.

Mas, se não há nenhum meio de o desalojar, que então? Não dissemos que não haja nenhum meio, mas unicamente que a maior parte dos meios empregados são inoperantes. Eis a tese que nos propomos desenvolver.

É preciso não perder de vista que os Espíritos constituem todo um mundo, toda uma população que enche o espaço, circula ao nosso lado, mistura-se em tudo quanto fazemos. Se se viesse a levantar o véu que no-los oculta, vê-los-íamos em redor de nós, indo e vindo, seguindo-nos, ou nos evitando, segundo o grau de simpatia. Uns indiferentes, verdadeiros vagabundos do mundo oculto, outros muito ocupados, quer consigo mesmos, que com os homens aos quais se ligam, com um propósito mais ou menos louvável, segundo as qualidades que os distinguem. Numa palavra, veríamos uma réplica do gênero humano, com suas boas e más qualidades, com suas virtudes e seus vícios. Esse acompanhamento, ao qual não podemos escapar, porque não há recanto bastante oculto para se tornar inacessível aos Espíritos, exerce sobre nós, malgrado nosso, uma influência permanente. Uns nos impelem para o bem, outros para o mal. Muitas vezes as nossas determinações são resultado de sua sugestão. Felizes de nós, quando temos juízo bastante para discernir o bom e o mau caminho por onde nos procuram arrastar.

Dado que os Espíritos são apenas os próprios homens despojados do seu invólucro grosseiro, ou almas que sobrevivem aos corpos, segue-se que há Espíritos desde que há seres humanos no Universo. São uma das forças da Natureza e não esperaram que houvesse médiuns escreventes para agir. A prova disso é que, em todos os tempos, os homens cometeram inconseqüências, razão por que dizemos que sua influência independe da faculdade de escrever. Esta faculdade é um meio de conhecer aquela influência; de saber quais são os que vagueiam em redor de nós, que se ligam a nós. Pensar que nos podemos subtrair a isto, abstendo-nos de escrever, é fazer como as crianças que fechando os olhos pensam escapar a um perigo. Ao nos revelar aqueles que temos por companheiros, como amigos ou inimigos, a escrita nos oferece, por isso mesmo, uma arma para os combater, pelo que devemos agradecer a Deus. Em falta da visão para reconhecer os Espíritos, temos as comunicações escritas, pelas quais eles mostram o que são. Isto é para nós um sentido que nos permite julgá-los. Repelir esse sentido é comprazer-se em ficar cego e exposto ao engano sem controle.

A intromissão dos maus Espíritos nas comunicações escritas não é, portanto, um perigo do Espiritismo, pois, se perigo há, não depende dele e é permanente. Nunca estaríamos suficientemente persuadidos desta verdade. Há apenas uma dificuldade, da qual, entretanto, fácil é triunfar, se a isto nos dedicarmos de maneira conveniente.

Podemos estabelecer como principio que os maus Espíritos aparecem onde alguma coisa os atrai. Assim, quando se intrometem nas comunicações, é que encontram simpatias no meio onde se apresentam ou, pelo menos, lados fracos que esperam aproveitar. Em todo caso está visto que não encontram uma força moral suficiente para repeli-los. Entre as causas que os atraem devemos colocar, em primeiro lugar, as imperfeições morais de toda espécie, porque o mal sempre simpatiza com o mal. E em segundo lugar, a demasiada confiança com que são acolhidas as suas palavras.

Quando uma comunicação denota uma origem má, seria ilógico inferir daí uma paridade necessária entre o Espírito e os evocadores. Freqüentemente vemos pessoas muito honestas expostas às velhacarias dos Espíritos enganadores, como acontece no mundo com as pessoas decentes, enganadas pelos patifes. Mas quando tomamos precauções, os patifes nada têm a fazer; é o que acontece também com os Espíritos. Quando uma pessoa honesta é por eles enganada, pode sê-lo por duas causas. A primeira é uma confiança absoluta, que a leva a prescindir de todo exame. A segunda é que as melhores qualidades não excluem certos lados fracos, e dão entrada aos maus Espíritos desejosos de descobrir as menores falhas da couraça.  Não falamos do orgulho e da ambição, que são mais do que entraves: falamos de uma certa fraqueza de caráter e, sobretudo, dos preconceitos que esses Espíritos sabem explorar com habilidade, lisonjeando-os. É por isto que eles usam todas as máscaras, a fim de inspirar mais confiança.

As comunicações francamente grosseiras são as menos perigosas, pois a ninguém podem enganar. As que mais enganam são as que têm uma falsa aparência de sabedoria ou de seriedade, numa palavra, a dos Espíritos hipócritas e pseudo-sábios. Uns podem enganar de boa-fé, por ignorância, ou por fatuidade; outros só agem por astúcia. Vejamos qual o meio de nos desembaraçarmos deles.

A primeira coisa é não os atrair e evitar tudo quanto lhes possa dar acesso. Como vimos, as disposições morais são uma causa preponderante. Entretanto, abstração feita dessa causa, o modo empregado não deixa de ter influência. Há pessoas que têm por princípio jamais fazer evocações e esperar, a primeira comunicação espontânea saída do lápis do médium. Ora, se nos recordamos daquilo que ficou dito sobre a massa muito variada dos Espíritos que nos cercam, compreendemos sem dificuldade que isso é colocar-se à disposição do primeiro que vier bom ou mau. E como nesta multidão os maus predominam em número sobre os bons, há mais oportunidade para os maus. É exatamente como se abríssemos a porta a todos os que passam pela rua, ao passo que pela evocação fazemos a escolha e, cercando-nos de bons Espíritos, impomos silêncio aos maus, que poderão, apesar disto, procurar por vezes insinuar-se. Os bons chegam mesmo a permiti-lo a fim de exercitar a nossa sagacidade em reconhecê-los. Neste caso sua influência será nula.

As comunicações espontâneas têm uma grande utilidade quando temos a certeza da qualidade dos nossos acompanhantes. Então freqüentemente nos devemos felicitar pela iniciativa deixada aos Espíritos. O inconveniente está apenas no sistema absoluto, que consiste em nos abstermos do apelo direto e das perguntas.

Entre as causas que influem poderosamente sobre a qualidade dos Espíritos que freqüentam os Centros, não deve ser omitida a natureza das coisas de que ali se trata.  Aqueles que se propõem um fim sério e útil atraem por isso mesmo Espíritos sérios. Os que não visam senão a satisfazer uma vã curiosidade ou seus interesses pessoais, expõem-se pelo menos a mistificações, senão a algo pior. Em resumo, das comunicações espíritas podemos tirar os mais sublimes e os mais úteis ensinamentos, desde que os saibamos dirigir. Toda a questão está em não nos deixarmos levar pela astúcia dos Espíritos zombadores ou malévolos. Ora, para isto o essencial é saber com quem tratamos. Para começar, ouçamos a respeito os conselhos que o Espírito de São Luís dava à Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, através do Sr. R..., um dos seus bons médiuns. Trata-se de uma comunicação espontânea, recebida em sua casa, com a missão de transmiti-la à Sociedade:

"Por maior que seja a legítima confiança que vos inspiram os Espíritos que presidem aos vossos trabalhos, é recomendação nunca por demais repetida que deveis ter sempre presente em vossa mente, quando aos entregardes aos vossos estudos: pesai e refleti; submetei ao controle da razão a mais severa todas as comunicações que receberdes; desde que uma resposta vos pareça duvidosa ou obscura, não vos esqueçais de pedir os necessários esclarecimentos para vos orientardes.

"Sabeis que a revelação existiu desde os tempos mais remotos, mas foi sempre apropriada ao grau de adiantamento dos que a recebiam. Hoje não se trata de vos falar por imagens, e parábolas: deveis receber nossos ensinamentos de uma maneira clara, precisa, e sem ambigüidades. Seria, entretanto, muito cômodo nada ter que perguntar para esclarecer; aliás, isto seria fugir às leis do progresso, que presidem a evolução universal. Não vos admireis, pois, se, para vos deixar o mérito da escolha e do trabalho, e também para punir as infrações que possais cometer aos nossos conselhos, seja por vezes permitido que certos Espíritos, mais ignorantes que mal intencionados, venham responder, em certos casos, às vossas perguntas. Em vez de ser isto um motivo de desencorajamento, deve ser um poderoso excitante para que procureis ardentemente a verdade. Ficai, pois, bem convictos de que, seguindo este caminho, não podereis deixar de chegar a resultados felizes. Sede unidos de coração e de intenção; trabalhai todos; procurai, procurai sempre e achareis".



Revista Espírita, setembro de 1859.

 

domingo, 11 de março de 2012

FIDELIDADE DOUTRINÁRIA

Há pessoas sempre em busca de atalhos, soluções prontas para agirem sem o esforço da análise, do exame cuidadoso, conforme recomenda o apóstolo Paulo “Examinai tudo; retende o bom” (Its, 5:21). Estas pessoas, por certo, ainda não entenderam a inspirada assertiva do Codificador, ao grafar na folha-de-rosto do primeiro livro eminentemente religioso da Doutrina, O Evangelho Segundo o Espiritismo: “FÉ INABALÁVEL SÓ O É A QUE PODE ENCARAR FRENTE A FRENTE A RAZÃO, EM TODAS AS ‘’EPOCAS DA HUMANIDADE”. O esforço para a construção dessa fé inabalável é penoso para aquele que desejam receber tudo pronto. Os que assim se posicionam têm muitas dúvidas no terreno da fidelidade doutrinaria. Seria do seu agrado o estabelecimento de um index para orientar o que deveriam ler, de um manual de procedimentos para as atividades desenvolvidas nos centros espíritas e, também de uma cartilha de orientação para o seu próprio procedimento em sociedade.

Em relação à fidelidade doutrinária, há posições as mais variadas assumidas pelas pessoas. Há aquelas que desejariam houvesse uma lista de obras “condenadas”, o que lhes facilitaria a escolha para a leitura de informações seguras, sem terem que “esquentar a cabeça”. No outro extremo, outras há que reagem negativamente a qualquer tipo de avaliação ou de juízo formulado sobre uma publicação, tachando tal ato como estabelecimento de index.

Nesse contexto, deve ser lembrado que uma das características marcantes do Espiritismo é exatamente a liberdade que confere aos seus profitentes. Liberdade aprendida com Jesus, que nunca constrangeu ninguém a fazer ou deixar de fazer algo, simplesmente porque lhe fora ordenado. O Mestre sempre buscava levar o ouvinte a entender os seus ensinamentos, raciocinando sobre eles, o que obtinha através dos diálogos que estabelecia.

Muitas passagens discutíveis do Novo Testamento, muitas palavras e frases atribuídas a Jesus, lá estão porque o Alto o permitiu. Apesar de muitos cortes, acréscimos e adaptações, o essencial foi conservado intacto. O que se tornou objeto de discussão serve para aprendermos a raciocinar em termo de fé e exercitarmos o bom senso. Se Jesus tivesse vindo para trazer-nos fórmulas acabadas de salvação – tão ao gosto de simplistas – não teria sido carpinteiro, mas sim canteiro, pois trabalhando com pedras teria oportunidade de deixar seus ensinamentos insculpidos em lajes, como verdadeiras “receitas” de salvação, a serem seguidas ipsis verbis pelos séculos afora. Esse desejo do Mestre, de conduzir seus discípulos ao estudo e à reflexão, fica muito claro quando recomenda ”E CONHECEREIS A VERDADE E A VERDADE VOS LIBERTARÁ” (Jo, 8:32).

Dentro dessa perspectiva, como encontrar o ponto de equilíbrio entre os que querem um index e um manual de procedimento e aqueles que advogam liberdade ampla, total e irrestrita?

Avaliar se uma obra ou uma prática está em consonância com os princípios doutrinários é tarefa para quem conhece realmente a Doutrina. Daí, a necessidade do estudo, da reflexão, da análise serena e desapaixonada, a fim de que se chegue à conclusão do que está de acordo e do que esta em confronto com as verdades que o Espiritismo esposa.

A preservação da fidelidade doutrinária, no que diz respeito às práticas desenvolvidas numa entidade espírita, é mais fácil, pois ninguém usaria velas, bebidas, fumaça, roupas especiais, imagens, rituais, etc.. Entretanto, quando se trata do uso da palavra, seja oralmente, seja por escrito, a tarefa de verificação se torna mais difícil. Mais difícil porque esbarra, quase sempre, no personalismo camuflado num capa de inovação, renovação, atualização...

A mediunidade tem sido veiculo para a divulgação de muitas “novidades” que deveriam ter merecido acurado exame antes de se terem transformado em folhetos e, principalmente, em livros. Infelizmente, o encantamento provocado pelo fenômeno ainda oblitera a visão de muitos, conduzindo-os a entendimentos equivocados.

Se houvesse mais estudo da Codificação, por certo o número de obras antidoutrinárias existentes, tanto pela ação de médiuns quanto de leitores seria bem menor, para não dizermos nulo. Temos o exempli maior em Kardec, que se conservou sereno e judicioso, embora a imensa emoção que deve ter sentido ao comprovar a imortalidade da alma, ao “descobrir” o Mundo Espiritual, ao verificar o relacionamento efetivo entre encarnados e desencarnados. É oportuno seja lembrada a sempre atual advertência de Erasto, que Kardec inseriu em O Livro dos Médiuns: “MELHOR É REPELIR DEZ VERDADES DO QUE ADMITIR UMA ÚNICA FALSIDADE, UMA SÓ TEORIA ERRÔNEA.” (item 230).

A necessidade do uso do bom senso no campo da mediunidade é evidenciada desde os tempos apostólicos, conforme se aprende com o Apóstolo Paulo – seguramente a maior autoridade em assuntos mediúnicos no Cristianismo nascente – que recomenda: “E FALEM DOIS OU TRES PROFETAS, E OS OUTROS JULGUEM.” (I Co, 14:29). O mesmo cuidado é recomendado por João: “AMADOS, NÃO CREAIS EM TODO O ESPÍRITO, MAS PROVAI SE OS ESPÍRITOS SÃO DE DEUS; PORQUE JÁ MUITOS FALSOS PROFETAS SE TEM LEVANTADO NU MUNDO.” (i Jo, 4:1).

Essas recomendações continuam atualíssimas, diante do momento que vivemos, pois atravessamos um período que nos requer muita atenção relativamente á fidelidade doutrinaria principalmente no campo mediúnico voltado á produção de livros. Note-se que o vocábulo produção é intencionalmente usado aqui para substituir publicação, pela verdadeira avalancha de obras mediúnicas que invadem as prateleiras das livrarias.

Há uma ânsia desenfreada de se publicar tudo o que médiuns invigilantes produzem sequiosos de verem seus nomes em capas de livros. Há editoras que descobriram um verdadeiro filão de ouro no meio espírita. Muitos dos que adquirem livros, pensando estar ajudando instituições de amparo a necessitados, não são informados do que restam no final, depois de deduzidas as despesas e os ganhos das editoras... Se há grande profissionalismo editorial, infelizmente, o profissionalismo mediúnico, no que se refere à literatura espírita ficou restrita à conhecida família espirita, que não mais se pode dizer espirita, mas sim praticante de mediunidade apenas.

Os adversários do Espiritismo de há muito desistiram de combatê-lo através de ataques exteriores.  Agora eles se imiscuem no nosso meio, onde quase que imperceptivelmente, valendo-se da invigilância de muitos, buscam lançar o descrédito através de mensagens fantasiosas, quando não ridículas. Por isso, no quadro atual, mais que nunca, os médiuns devem pôr em prática o “VIGIAI E ORAI, PARA QUE NÃO ENTREIS EM TENTAÇÃO (...)”. (Mt, 26:41).

Diante do exposto, fica claro que não se pode nem estabelecer um Manuel de procedimentos, nem elaborar um índex, objetivando a preservação da fidelidade doutrinária. Mas, então, como proceder diante dessa quantidade imensa de obras inovadoras e de posicionamentos inusitados, cujas “revelações” e “modernizações” vão desde o simplesmente discutível ao claramente antidoutrinário?

Em atitudes discretas, equilibradas, ao amparo da oração sincera, cada espírita consciente deve constituir-se em guardião fiel dos princípios doutrinários, o que conseguirá através do estudo, da reflexão, do uso do bom senso.

Artigo publicado na Revista Internacional do Espiritismo

segunda-feira, 5 de março de 2012

A GRAVE QUESTÃO DA PREGUIÇA MENTAL

Um dos grandes obstáculos ao progresso humano está na preguiça mental. O homem prefere receber as informações “mastigadas” pela mídia ao invés de dedicar-se ao estudo que exige o raciocínio. A TV ainda impera sobre o livro.

Sabendo disso, muitos mestres, em todos os tempos, utilizam o recurso de contar estórias ou histórias para transmitir o ensinamento que se propõem a divulgar. E para prender a atenção do público a que se destina toda mensagem são revestida das mais variadas recursos que atraem.

Assim a TV, o rádio, o vídeo, o teatro. Muitas vezes o conteúdo não é bom, mas a embalagem atrai e prende a atenção. E engana como ocorre com a publicidade do cigarro, por exemplo...

E os espíritas, como ficamos? Temos uma maravilhosa mensagem, toda ela voltada para o crescimento do ser humano. Precisamos, sem dúvida, utilizar todos os modernos meios de comunicação para transmitir essa mensagem ao grande público. Os recursos tecnológicos da atualidade, como microfone, telão, vídeo, retroprojetor, projetor de slides, som, computador e outros facilitam muito a divulgação das idéias espíritas.

Voltando ao início de nosso pensamento, verificamos que o recurso de contar estórias ou histórias facilita e muito à transmissão da divulgação doutrinária. Não é por acaso que renomados autores encarnados e desencarnados usam a forma romanceada, e nem foi por outra razão que Jesus também usou as parábolas para ensinar. Este recurso realmente consegue transmitir o ensinamento com muita objetividade, facilita a memorização do ensinamento, prende a atenção. Na tribuna, por exemplo, ele tem um efeito excelente, principalmente se descontraído.

Mas, analisemos uma parábola de Jesus: A Parábola dos Dois Filhos. Em breve resumo, a parábola indica um Pai e dois filhos, convidados para trabalharem na vinha do Pai. O primeiro promete ir, mas não vai. Já o segundo filho, rebela-se dizendo que não vai, arrepende-se depois e acaba indo. À luz da Doutrina Espírita, podemos extrair o ensinamento da parábola. O texto em si é a embalagem que precisamos desembrulhar para conhecer o conteúdo e dele extrair o ensinamento. Também em breve resumo, podemos concluir que o Pai da parábola é Deus. Os filhos somos todos nós, detentores do livre-arbítrio, com a liberdade de opção de trabalhar ou não na seara do Pai. Seara é todo o campo de trabalho que Deus nos oferece.

Observemos que o Pai não impõe condições, nem reprova o comportamento. Respeita a liberdade dos filhos. Com o texto embalado pela estória, podem-se extrair muitos ensinamentos, em conteúdo e grande profundidade.

A parábola é um convite para sairmos da ociosidade, é um apelo ao trabalho em favor de um mundo melhor, porém a decisão é de cada um. Há muito que se fazer em favor uns dos outros, nos variados campos da atividade humana, mas também e principalmente no uso da caridade e do amor...

Já a assimilação do ensinamento só por palavras é como o filho que diz que vai e não vai, fica adiando sua transformação no bem ou o trabalho em favor do semelhante. Como diz a parábola, não é preferível o filho às vezes indisciplinado, mas que toma depois a decisão de se melhorar e trabalhar na vinha do Senhor? No pequeno exemplo da parábola referida está à embalagem a ser aberta e no seu interior a pérola do ensinamento. Libertemo-nos, pois, da preguiça mental e mergulhemos no raciocínio a fim de extrair da Doutrina Espírita, com sua extensa e variada literatura, as luzes do Evangelho de Jesus, a fim de não sermos os indecisos como cristãos de aparência que dizem, mas não fazem que adiem o progresso...

E para os que preferem a acomodação mental, continuemos a utilizar o recurso das estórias e histórias, a fim de fixar com mais facilidade a divulgação das idéias de Jesus e dos ideais de nossa querida Doutrina.

Para concluir, contudo, e considerando os valores libertadores trazidos pela Doutrina Espírita em favor do homem, trago aos leitores transcrição parcial do capítulo A Conclusão da Pesquisa, pelo Espírito Ignácio Bittencourt **, onde o autor, ao referir-se a minuciosa pesquisa levada a efeito nas Esperas Superiores, na qual os Excelsos Dirigentes do Espiritismo “chegaram à conclusão de que, junto às calamitosas quedas morais e às deserções deploráveis de numerosos companheiros responsáveis pelo serviço libertador, entre todas as causas que dificultam a marcha da Nova Revelação na Terra, destaca-se, em posição de espetacular e doloroso relevo, a preguiça mental”.



Orson Peter Carrara

REFORMADOR, NOVEMBRO, 1997 

VIEIRA, Waldo. Seareiros de Volta, por Espíritos Diversos. 5ª ed. FEB, 1993.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

NOÇÕES DE LAR.

Desejando colher valores educativos que fluíam naturalmente da palestra da senhora Laura, perguntei, curioso:

- Desempenhando tantos deveres, a senhora ainda tem atribuições fora de casa?

- Sim; vivemos numa cidade de transição; no entanto, as finalidades da colônia residem no trabalho e no aprendizado. As almas femininas, aqui, assumem numerosas obrigações, preparando-se para voltar ao planeta ou para ascender a esferas mais altas.

- Mas a organização doméstica, em "Nosso Lar", é idêntica à da Terra?

A interlocutora esboçou uma face muito significativa e acrescentou:

- O lar terrestre é que, de há muito, se esforça por copiar nosso instituto doméstico; mas os cônjuges por lá, com raras exceções, estão ainda a moldar o terreno dos sentimentos, invadido pelas ervas amargosas da vaidade pessoal, e povoado de monstros do ciúme e do egoísmo. Quando regressei do planeta, pela última vez, trazia, como é natural, profundas ilusões. Coincidiu, porém, que, na minha crise de orgulho ferido, fui levada a ouvir um grande instrutor, no Ministério do Esclarecimento. Desde esse dia, nova corrente de idéias me penetrou o espírito.

- Não poderia dizer-me algo das lições recebidas? - indaguei com interesse.

- O orientador, muito versado em matemática - prosseguiu ela -, fez-nos sentir que o lar é como se fora um ângulo reto nas linhas do plano da evolução divina. A reta vertical é o sentimento feminino, envolvido nas inspirações criadoras da vida. A reta horizontal é o sentimento masculino, em marcha de realizações no campo do progresso comum. O lar é o sagrado vértice onde o homem e a mulher se encontram para o entendimento indispensável. É templo, onde as criaturas devem unir-se espiritual antes que corporalmente. Há na Terra, agora, grande número de estudiosos das questões sociais, que aventam várias medidas e clamam pela regeneração da vida doméstica. Alguns chegam a asseverar que a instituição da família humana está ameaçada. Importa considerar, entretanto, que, a rigor, o lar é conquista sublime que os homens vão realizando vagarosamente.

Onde, nas esferas do globo, o verdadeiro instituto doméstico, baseado na harmonia justa, com os direitos e deveres legitimamente partilhados? Na maioria, os casais terrestres passam as horas sagradas do dia vivendo a indiferença ou o egoísmo feroz. Quando o marido permanece calmo, a mulher parece desesperada; quando a esposa se cala, humilde, o companheiro tiraniza.

Nem a consorte se decide a animar o esposo, na linha horizontal de seus trabalhos temporais, nem o marido se resolve a segui-la no vôo divino de ternura e sentimento, rumo aos planos superiores da Criação. Dissimulam em sociedade e, na vida íntima, um faz viagens mentais de longa distância, quando o outro comenta o serviço que lhe seja peculiar.

Se a mulher fala nos filhinhos, o marido excursiona através dos negócios; se o companheiro examina qualquer dificuldade do trabalho, que lhe diz respeito, a mente da esposa volta ao gabinete da modista. É claro que, em tais circunstâncias, o ângulo divino não está devidamente traçado. Duas linhas divergentes tentam, em vão, formar o vértice sublime, a fim de construírem um degrau na escada grandiosa da vida eterna.

Esses conceitos calavam-me fundo e, sumamente impressionado, observei:

- Senhora Laura, essas definições suscitam um mundo de pensamentos novos. Ah! se conhecêssemos tudo isso lá na Terra!...

- Questão de experiência, meu amigo - replicou a nobre matrona -, o homem e a mulher aprenderão no sofrimento e na luta. Por enquanto, raros conhecem que o lar é instituição essencialmente divina e que se deve viver, dentro de suas portas, com todo o coração e com toda a alma. Enquanto as criaturas vulgares atravessam a florida região do noivado, procuram-se mobilizando os máximos recursos do espírito, e daí o dizer-se que todos os seres são belos quando estão verdadeiramente amando. O assunto mais trivial assume singular encanto nas palestras mais fúteis. O homem e a mulher comparecem aí, na integração de suas forças sublimes. Mas logo que recebem a bênção nupcial, a maioria atravessa os véus do desejo, e cai nos braços dos velhos monstros que tiranizam corações. Não há concessões recíprocas. Não há tolerância e, por vezes, nem mesmo fraternidade. E apaga-se a beleza luminosa do amor, quando os cônjuges perdem a camaradagem e o gosto de conversar. Daí em diante, os mais educados respeitam-se; os mais rudes mal se suportam. Não se entendem.

Perguntas e respostas são formuladas em vocábulos breves. Por mais que se unam os corpos, vivem as mentes separadas, operando em rumos opostos.

- Tudo isso é a pura verdade! - aduzi comovido.

- Que fazer, porém, meu amigo? - replicou a bondosa senhora - na fase atual evolutiva do planeta, existem na esfera carnal raríssimas uniões de almas gêmeas, reduzidos matrimônios de almas irmãs ou afins, e esmagadora porcentagem de ligações de resgate. O maior número de casais humanos é constituído de verdadeiros forçados, sob algemas.

Procurando retomar o fio das considerações sugeridas por minha pergunta inicial, continuou a genitora de Lísias:

- As almas femininas não podem permanecer inativas aqui. É preciso aprender a ser mãe, esposa, missionária, irmã. A tarefa da mulher, no lar, não pode circunscrever-se a umas tantas lágrimas de piedade ociosa e a muitos anos de servidão. É claro que o movimento coevo do feminismo desesperado constituí abominável ação contra as verdadeiras atribuições do espírito feminino. A mulher não pode ir ao duelo com os homens, através de escritórios e gabinetes, onde se reserva atividade justa ao espírito masculino. Nossa colônia, porém, ensina que existem nobres serviços de extensão do lar, para as mulheres. A enfermagem, o ensino, a indústria do fio, a informação, os serviços de paciência, representam atividades assaz expressivas. O homem deve aprender a carrear para o ambiente doméstico a riqueza de suas experiências, e a mulher precisa conduzir a doçura do lar para os labores ásperos do homem. Dentro de casa, a inspiração; fora dela, a atividade. Uma não viverá sem a outra. Como sustentar-se o rio sem a fonte, e como espalhar-se a água da fonte sem o leito do rio?

Não pude deixar de sorrir, ouvindo a interrogação. A mãe de Lísias, depois de longo intervalo, continuou:

- Quando o Ministério do Auxílio me confia crianças ao lar, minhas horas de serviço são contadas em dobro, o que lhe pode dar idéia da importância do serviço maternal no plano terreno. Entretanto, quando isso não acontece, tenho meus deveres diuturnos nos trabalhos de enfermagem, com a semana de quarenta e oito horas de tarefa. Todos trabalham em nossa casa. A não ser minha neta convalescente, não temos qualquer pessoa da família em zonas de repouso.

Oito horas de atividade no interesse coletivo, diariamente, é programa fácil a todos. Sentir-me-ia envergonhada se não o executasse também.

Interrompeu-se a interlocutora por alguns momentos, enquanto me perdia em vastas considerações...

- A palestra, senhora Laura - exclamei com interesse -, sugere numerosas interrogações, relevar-me-á a curiosidade, o abuso...

- Não diga isso - retrucou, bondosa -, pergunte sempre. Não estou em condições de ensinar; todavia, é sempre fácil informar.

Rimo-nos da observação e indaguei em seguida:

- Como se encara o problema da propriedade na colônia? Esta casa, por exemplo, pertence-lhe?

Ela sorriu e esclareceu:

- Tal como se dá na Terra, a propriedade aqui é relativa. Nossas aquisições são feitas à base de horas de trabalho. O bônus-hora, no fundo, é o nosso dinheiro. Quaisquer utilidades são adquiridas com esses cupons, obtidos por nós mesmos, a custa de esforço e dedicação. As construções em geral representam patrimônio comum, sob controle da Governadoria; cada família espiritual, porém, pode conquistar um lar (nunca mais que um), apresentando trinta mil bônus-hora, o que se pode conseguir com algum tempo de serviço. Nossa morada foi conquistada pelo trabalho perseverante de meu esposo, que veio para a esfera espiritual muito antes de mim. Dezoito anos estivemos separados pelos laços físicos, mas sempre unidos pelos elos espirituais. Ricardo, porém, não descansou. Recolhido ao "Nosso Lar", depois de certo período de extremas perturbações, compreendeu imediatamente a necessidade do esforço ativo, preparando-nos um ninho para o futuro. Quando cheguei, estreamos a habitação que ele organizara com esmero, acentuando-se nossa ventura. Desde então, meu esposo ministrou-me conhecimentos novos. Minhas lutas na viuvez haviam sido intensas. Muito moça ainda, com os filhos tenros, tive de enfrentar serviços rudes.

A custa de testemunhos difíceis, proporcionei aos rebentos de nossa união os valores educativos, de que eu podia dispor, habituando-os, porém, muito cedo, aos trabalhos árduos. Compreendi, depois, que a existência laboriosa me livrara das indecisões e angústias do Umbral, por colocar-me a coberto de muitas e perigosas tentações. O suor do corpo ou a preocupação justa, nos campos de atividade honesta, constituem valiosos recursos para a elevação e defesa da alma. Reencontrar Ricardo, tecer novo ninho de afetos, representava o céu para mim. Durante anos consecutivos, vivemos a vida de perene ventura, trabalhando por nossa evolução, unindo-nos cada vez mais, e cooperando no progresso efetivo dos que nos são afins. Com o correr do tempo, Lísias, Iolanda e Judite reuniram-se a nós, aumentando nossa felicidade.

Após ligeiro intervalo, em que parecia meditar, minha interlocutora prosseguiu em tom grave:

- Mas a esfera do globo nos esperava. Se o presente estava cheio de alegria, o passado chamava a contas, para que o futuro se harmonizasse com a lei eterna. Não podíamos pagar à Terra com bônus-hora e sim com o suor honrado, fruto de trabalhos. Dada a nossa boa-vontade, aclarava-se nos a visão, relativamente ao pretérito doloroso. A lei do ritmo exigia, então, nossa volta.

Aquelas afirmativas causavam-me viva impressão. Era a primeira vez que se feria tão fundo aos meus ouvidos, na colônia, o assunto referente a encarnações pregressas.

- Senhora Laura - exclamei, interrompendo-a -, permita, por obséquio, um aparte. Perdoe a curiosidade; no entanto, até agora, ainda não pude conhecer mais detidamente o que se relaciona com o meu passado espiritual. Não estou isento dos laços físicos? Não atravessei o rio da morte? A senhora recordou o passado, logo após sua vinda, ou esperou o concurso do tempo?

- Esperei-o - replicou, sorridente -; antes de tudo, é indispensável nos despojarmos das impressões físicas. As escamas da inferioridade são muito fortes. É preciso grande equilíbrio para podermos recordar, edificando. Em geral, todos temos erros clamorosos, nos ciclos da vida eterna. Quem lembra o crime cometido costuma considerar-se o mais desventurado do Universo; e quem recorda o crime de que foi vítima, considera-se em conta de infeliz, do mesmo modo. Portanto, somente a alma, muito segura de si, recebe tais atributos como realização espontânea. As demais são devidamente controladas no domínio das reminiscências, e, se tentam burlar esse dispositivo da lei, não raro tendem ao desequilíbrio e à loucura.

- Mas a senhora recordou o passado de maneira natural? - perguntei.

- Explico-me - respondeu bondosamente -; quando se me aclarou a visão interior, as lembranças vagas me causavam perturbações de vulto.

Coincidiu que meu marido partilhava o mesmo estado d’alma. Resolvemos ambos consultar o assistente Longobardo. Esse amigo, depois de minucioso exame das nossas impressões, nos encaminhou aos magnetizadores do Ministério do Esclarecimento. Recebidos com carinho, tivemos acesso em primeiro lugar à Seção do Arquivo, onde todos nós temos anotações particulares. Aconselharam-nos os técnicos daquele Ministério a ler nossas próprias memórias, durante dois anos, sem prejuízo de nossa tarefa do Auxílio, abrangendo o período de três séculos. O chefe do serviço de Recordações não nos permitiu a leitura de fases anteriores, declarando-nos incapazes de suportar as lembranças correspondentes a outras épocas.

- E bastou a leitura para que se sentisse na posse das reminiscências? - atalhei curioso.

- Não. A leitura apenas informa. Depois de longo período de meditação para esclarecimento próprio, e como surpresas indescritíveis, fomos submetidos a determinadas operações psíquicas, a fim de penetrar os domínios emocionais das recordações. Os espíritos técnicos no assunto nos aplicaram passes no cérebro, despertando certas energias adormecidas... Ricardo e eu ficamos, então, senhores de trezentos anos de memória integral. Compreendemos, então, quão grande é ainda o nosso débito para com as organizações do planeta!...

- E onde está nosso irmão Ricardo? Como estimaria conhecê-lo!... - exclamei sob forte impressão.

A genitora de Lísias meneou significativamente a cabeça e murmurou:

- Em vista de nossas observações referentes ao passado, combinamos novo encontro nas esferas da crosta. Temos trabalho, muito trabalho, na Terra.

Desse modo, Ricardo partiu há três anos. Quanto a mim, seguirei dentro de breves dias. Aguardo apenas a chegada de Teresa, para deixá-la junto aos nossos.

E de olhar vago, como se a mente estivesse muito longe, ao lado da filha ainda retida na Terra, a senhora Laura acentuou:

- A mãe de Eloísa não tardará. A passagem dela através do Umbral será somente de algumas horas, em vista dos seus profundos sacrifícios, desde a infância. Pelo muito que sofreu não precisará dos tratamentos da Regeneração. Poderei, portanto, transmitir-lhe minhas obrigações no Auxílio e partir sossegada. O Senhor não nos esquecerá.



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

VISÃO ESPÍRITA DA EPILEPSIA


A epilepsia é uma das enfermidades mais antigas da humanidade. Na antiga Babilônia, eram feitas restrições ao casamento de pessoas epilépticas, com o argumento de que eram possuídas pelo demônio. Já na Idade Média, a epilepsia era considerada uma doença mental e contagiosa, visão que persiste nos tempos atuais nas pessoas desinformadas.

Na Bíblia, encontramos a passagem do “menino epiléptico”, narrada por Mateus (17: 14 a 19), na qual Jesus, “tendo ameaçado o demônio, fez com que ele saísse da criança, que foi curada no mesmo instante”. No livro A Gênese, Allan Kardec explica que a “imensa superioridade do Cristo lhe dava tal autoridade sobre os espíritos imperfeitos, chamados então de demônios, que lhe bastava ordenar que se retirassem para que não pudessem resistir a essa injunção”.

Para nós, espíritos em aprendizado, fazer uma desobsessão é mais complexo. Precisamos ter uma ajuda espiritual e muito carinho com nossos semelhantes, pois o verdugo de hoje foi vítima ontem. Para sabermos se o problema é um processo obsessivo ou carma, devemos analisar os tipos de reencarnação: expiação, provação e missão. A expiação é o resgate, por meio da dor, de erros cometidos em outras existências. Pela provação, temos provas voluntariamente solicitadas pelo espírito, as quais, se bem suportadas, resultarão em seu progresso espiritual. A missão é a realização de qualquer tarefa, de pequena ou grande relevância. A Terra pertence à categoria dos mundos de expiação e provas.

A medicina descreve uma crise epiléptica como uma desordem cerebral, causada por descarga elétrica anormal, excessiva e transitória das células nervosas, decorrente de correntes elétricas que são fruto da movimentação iônica através da membrana celular. Existem diversos tipos de crises, como parciais, parciais e completas, generalizadas e tônico-crônicas.



Causas da epilepsia

As causas da epilepsia podem ser desde uma lesão na cabeça como um parto à fórceps. O uso abusivo de álcool e drogas, além de outras doenças neurológicas, também podem gerar a doença. Na maioria dos casos, entretanto, desconhece-se as causas que lhe dão origem. Muitas vezes, o paciente tem as convulsões e os exames realizados dão resultados normais. Divaldo Pereira Franco, no livro Grilhões Partidos, afirma que “mesmo nesses casos, temos que levar em conta os fatores cármicos incidentes para imporem ao devedor o precioso reajuste com as leis divinas, utilizando-se do recurso da enfermidade-resgate, expiação purgadora de elevado benefício para todos nós”.

Vale ressaltar que a medicina terrestre evoluiu, não só porque conta com a cirurgia, que é usada quando o resultado da medicação não foi satisfatório e o médico avalia as possibilidades de sucesso cirúrgico, mas por que os médicos têm se preocupado em adaptar o paciente à vida social e familiar, além da reabilitação aos estudos. Muitas vezes, envolvem vários profissionais de diversas áreas, como psicólogos, terapeutas etc., elucidando o paciente e sua família sobre a importância do uso dos remédios e o apoio dos pais nesta caminhada. Estes, inclusive, com receio das crises epilépticas, acabam dando uma superproteção ao filho, temendo que ele se machuque. Essa proteção é normal, mas deixa o epiléptico dependente dos genitores, tornando-o uma criança isolada e fechada.

Algumas pessoas, sem o devido estudo, alegam que a epilepsia é uma mediunidade que deve se desenvolver. Porém, conforme afirma Divaldo Pereira Franco em Grilhões Partidos, vale ressaltar que “não desconhecemos que toda enfermidade procede do espírito endividado, sendo a terapêutica espiritista de relevante valia. Porém, convém considerar que, antes de qualquer esforço externo, há que se predispor o paciente à renovação íntima intransferível, ao esclarecimento, à educação espiritual, a fim de que se conscientize das responsabilidades que lhe dizem respeito, dando início ao tratamento que melhor lhe convém, partindo de dentro para fora. Posteriormente e só então, far-se-á lícito que participe dos labores significativos do ministério mediúnico, na qualidade de observador, cooperador e instrumento, se for o caso”.

Existem processos perniciosos de obsessão que fazem lembrar um ataque epiléptico devido à igualdade da manifestação. Também com uma gravidade séria, ainda conforme as palavras de Divaldo, “ocorrência mais comum se dá quando o epiléptico sofre a carga obsessiva simultaneamente, graças aos gravames do passado, em que sua antiga vítima se investe da posição de cobrador, complicando-lhe a enfermidade, então com caráter misto”.

Independentemente do fato do epiléptico estar sob um processo obsessivo ou não, é importante a freqüência ao centro espírita para a reforma íntima e para receber aplicação de passes, que é uma transfusão de energias físio-psíquicas. Porém, mesmo com o tratamento espiritual, o epiléptico deve manter controle com a medicina terrestre, com a aplicação de anticonvulsivos, pois cada caso é um caso.



Reforma íntima

Pode-se fazer um tratamento de desobsessão e o inimigo do passado ser doutrinado, mas a dívida persistirá enquanto não for regularizada, como explica Divaldo no livro. “Considerando-se que o devedor se dispõe à renovação, com real propósito de reajustamento íntimo, modificando as paisagens mentais a esforço de leitura salutar, oração e reflexão com trabalho edificante em favor do próximo e de si mesmo, mudam-se-lhe os quadros provacionais e providências relevantes são tomadas pelos mensageiros encarregados de sua reencarnação, alterando-lhe a ficha cármica. Como vê, o homem é o que lhe compraz, o que cultiva”, descreve.

Gostaria de terminar dizendo para as pessoas que têm epilepsia e seus familiares que jamais desanimem, em momento algum, sobretudo nos momentos mais difíceis, onde a doença parece incontrolável. Os pais são o alicerce para o filho epiléptico e este só poderá obter a cura total ou parcial com o apoio dos familiares e muita fé em Deus.

Ao terminar de ler esta matéria, não se preocupe em ficar remoendo na mente sobre os atos que poderia ter feito no pretérito que lhe fizessem voltar com essa enfermidade. Cuide de sua reforma íntima e espiritual, para que, posteriormente, venha a trabalhar em prol dos mais necessitados. Dessa forma, além de se ajudar a evoluir espiritualmente, ajudará também muitas pessoas que virão ao seu socorro.

Artigo publicado na Revista Cristã de Espiritismo, edição 14.